Os XXXIX Colóquios de Relações
Internacionais na Universidade do Minho realizaram-se nos dias 8 e 9 de maio e
tiveram como tema este ano a “(In)governabilidade no Século XXI”. No total
houve quatro painéis: o papel das OI’s/ONG’s na Governabilidade; Status quo da
diplomacia do século XXI; cibersegurança; e governabilidade no espaço. O painel
que se destacou, tanto para mim, como para o resto do meu grupo de trabalho,
foi o da cibersegurança. O painel teve como oradores André Barrinha, professor
de Segurança Internacional na University of Bath (Reino Unido), e Henrique
Santos, professor associado ao Departamento de Sistemas de Informação na nossa
prestigiada Universidade do Minho. O orador que mais me chamou a atenção neste
tema foi André Barrinha, por estar mais ligado ao domínio das Relações
Internacionais, enquanto Henrique Santos tem uma visão mais técnica daquilo que
é a cibersegurança. Deste modo, o presente post
vai se centrar na visão do Dr. Barrinha sobre este tema.
A cibersegurança é uma questão
que, a meu ver, ainda não é abordada o suficiente no âmbito das Relações
Internacionais. Ao longo da licenciatura falamos das várias ameaças à Segurança
Humana, mas a cibersegurança acaba por ser subestimada entre essas. A verdade é
que vivemos num mundo cada vez mais globalizado, marcado pela interligação de
pessoas, culturas, e por consequente, de informações. Talvez a cibersegurança
seja das maiores armas que os Estados ou organizações irão tirar proveito nas
próximas décadas com o avanço progressivo da tecnologia. E para esta ameaça,
tanto os Estados, como organizações internacionais, e a parte que mais acaba
por ser atingida, os indivíduos, não estão preparados para encontrar soluções
face a esta ameaça, pois o avanço da tecnologia que se foi dando ao longo dos
tempos teve como intuito facilitar a vida de todos, e não usar essa tecnologia
como uma arma ofensiva. Portanto, uma solução para os ataques cibernéticos é
algo posto em cima da mesa há pouco mais de uma década, e uma mudança é algo
que demora o seu tempo a ser efetivamente conseguida. O problema decorrente da
cibersegurança também se prende muito ao facto de não haver efetivamente um
governo a nível global que tenha capacidade de controlar esta insegurança, dai
a pertinência do painel cibersegurança ser incluído no tema deste ano, a “(in)governabilidade
do século XXI”. Um governo mundial, em que um único corpo político teria poder
e influência para elaborar e aplicar leis a nível internacional, não existe, e
é muito improvável que algum dia venha a existir. Para isso, os Estados teriam
de reduzir ou abdicar da sua soberania sobre determinadas áreas, pois um
governo mundial teria um outro nível de administração sobre os governos
nacionais. Deste modo, há quem admita que o mundo é governado pela unanimidade
dos Estados, em que supostamente todos estão imbuídos do mesmo espírito e agem
conjuntamente como se fossem um todo para atingir um equilíbrio mundial, mas na
realidade por mais que esta ideia até pareça viável, a verdade é que isto não
acontece porque os Estados têm sistemas políticos diferentes, interesses
diferentes, posições globais diferentes. Por outro lado, certas pessoas vêm
instituições de caráter global, como a Organização das Nações Unidas (ONU),
como elementos de um suposto futuro sistema de governo mundial.
O orador que eu selecionei no
painel, André Barrinha, inicialmente ia focar a sua apresentação na União
Europeia, mas tendo em conta a atual composição do painel, preferiu debruçar-se
sobre uma abordagem um pouco mais geral da cibersegurança no contexto das
relações internacionais. Barrinha introduziu o seu discurso com uma analogia de
que em termos éticos e políticos, a cibersegurança devia ser entendida como um pântano – cada passo que nós damos,
acabamos por nos enterrar cada vez mais. Seguidamente, foi apresentada a questão
“Como é que as instituições lidam com a
questão da cibersegurança?”, à qual ele expôs cinco dilemas e paradoxos que
tornam extremamente difícil uma ação eficaz por parte destas em termos
políticos.
O primeiro dilema apresentado foi
o da cibersegurança enquanto conceito contestável. Os atores quando
definem a cibersegurança, focam-se em aspetos distintos. A partir daqui
resultam duas preocupações: em primeiro lugar, estamos a focar-nos numa
definição abrangente do conceito, onde incluímos também o ciberterrorismo, a
ciberguerra, o cibercrime, etc., ou numa definição limitada, onde incluímos
apenas a parte técnica? Quais as instituições que devem abordar as dinâmicas de
cibersegurança prende-se precisamente com a forma como o conceito é definido.
Em segundo lugar, quem é que estamos a tentar proteger? Será o Estado, a
economia, ou os indivíduos? A forma como o conceito é abordado pelas entidades
importa, pois só a partir daí podemos passar ao passo seguinte.
O segundo dilema prende-se com o
facto de o ciberespaço ser por definição pouco seguro. O ciberespaço, em
especial a Internet, possui uma estrutura quase impossível de destruir, mas
também é bastante suscetível a violações de segurança. Inicialmente, certamente
não se pensava que a Internet viesse a ser utilizada para ciberataques, para transmitir
informações confidenciais ou para roubar dados do governo. O desenvolvimento da
“Internet of Things” só veio acrescentar probabilidades ao sistema, porque
muitos dos equipamentos não são feitos com a devida segurança, graças às
pressões de mercado, que fazem com que os produtos que muitas vezes são pouco
ou mal testados sejam diretamente postos à venda. Daqui surge um dilema: “limitamos o nosso acesso às redes de
informação ou aceitamos o risco da vulnerabilidade acrescida do seu uso
massificado?” a resposta óbvia é que não, não limitados o nosso acesso, mas
sim, sujeitamo-nos à vulnerabilidade do sistema.
O terceiro dilema tem a ver com o
ciberespaço como domínio do privado. São os atores privados que possuem
a maior parte do “know-how”, têm os
interesses económicos em jogo, ajudam o coprocedimento da intervenção anterior,
auxiliam a definir a cibersegurança enquanto política pública, e auxiliam a
implementá-la. O setor privado e o setor público têm estratégias e prioridades
diferentes, como por exemplo, um ator privado
pode não ter interesse em disponibilizar informações relativamente a um ataque
informático porque isso reduz a confiança da empresa, pois provavelmente
iriamos deixar de comprar à mesma. Face a este contexto, ou as empresas possuem
uma responsabilidade social na matéria da cibersegurança, mesmo que isso possa
afetar a sua atividade, ou se não possuem, até que ponto podemos obrigá-las a
definir a cibersegurança como uma prioridade.
O quarto dilema está relacionado
com o ciberespaço e o problema da fronteira. O ciberespaço possui um
caráter transnacional. Um sistema que funcione bem entre o mundo digital e o
mundo físico exige um elevado nível de controle e, consequentemente de censura.
Se não for adotada uma abordagem de controlo, as barreiras artificiais não são
mais do que “lonas na estrada” –
podem abrandar a circulação automóvel, mas não vão fazer parar o carro. Deverá
o Estado adotar uma atitude de controle ou deverá adotar uma atitude liberal? O
ideal seria encontrar um meio termo.
O quinto, e último dilema, está
direcionado para o ciberespaço e as relações internacionais. E aqui há
três questões fundamentais que foram abordadas: a utilização das ciberarmas, a
atribuição das ciberarmas e a definição de normas internacionais. Na primeira
questão, há dois problemas associados: as armas só podem ser utilizadas uma
vez, uma vez que depois de descoberta a vulnerabilidade, esta é remediada, e
deixa de puder ser utilizada novamente; as consequências da sua utilização vão
inevitavelmente fragilizar o ciberespaço como um todo, mesmo que o intuito
tenha sido atingir apenas um determinado alvo. Então o dilema passa a ser o seguinte:
“devemos ambicionar ter cada vez mais
capacidade ofensiva no ciberespaço, ou aceitamos que o risco da sua utilização
não compensa os potenciais benefícios?”. Na segunda questão, é referido que
as relações internacionais se desenvolvem normalmente no campo do visível.
Mesmo as manobras mais obscuras levam normalmente a resultados públicos. Desta
forma, uma abordagem mais transparente vai limitar a capacidade dos agentes e, em
contraste, com menos transparência não podemos avaliar a situação de uma forma
clara, tendo apenas que confiar no que os agentes nos dizem. A terceira, e
última questão, tem a ver com a definição de normas internacionais, que está
relacionada com a abordagem teórica que escolhi abordar no post “a importância da implementação de normas no ciberespaço”. O
ciberespaço é produto da hegemonia ocidental, contudo, existem visões bastante
distintas desta, nomeadamente no que concerne à China e à Rússia. Estes
defendem a ideia de que cada país deve ter o controlo absoluto sobre aquilo que
se passa dentro desse país em termos de utilização do ciberespaço. Tal ideia
vai completamente contra a lógica base do ciberespaço, de que há uma governação
descentralizada, em que atores não estatais, como as OI’s, ONG’s e empresas
fazem funcionar a Internet.
A grande questão com que Barrinha
termina a sua apresentação e que eu considero pertinente para futuros trabalhos
de investigação é:
- Será mais benéfico manter uma visão aberta entre a visão ocidental e
não ocidental do ciberespaço, sabendo que poderá levar a uma vulnerabilização
do mesmo? Ou devemos adotar a visão não ocidental, mesmo sabendo as
consequências a nível da censura e controlo da informação?
Concluindo, a meu ver, só quando se encontrar uma resposta definitiva a cerca destas questões é que se poderá dar o passo seguinte rumo à implementação de normas que assegurem uma efetiva proteção do ciberespaço.
Cristiana Figueiredo, aluna do 2º ano de Relações Internacionais

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